
O BARRO
© ADILIA RIBEIRO QUINTELAS
O barro
O barro vermelho
Recobre os pés e o cabelo
Embota as idéias, que viram pedras
O barro emoldurando as ruas
Barro nas minhas mãos e nas tuas
O barro no vento
Nevoeiro vermelho
No ar confuso tua imagem difusa
Quilômetros de estradas de barro
O carro fica vermelho
Até chegar a ti, tão longe
Sobra a estátua, barro que imita o bronze
Mas se desfaz na chuva
Vira rio de lama
Que fica lá parado, secando
Até virar deserto
Mais um dia de espera
Meus poros duros de barro sufocam
O suor tem que atravessar paredes
Lágrimas, nem pensar
O vento começa a soprar
Vai me cobrir de barro
Até eu sumir
Vou virar parte do chão
Vou ser um fóssil
Memória da solidão