POETAS DO BRASIL

Blog para divulgar poetas brasileiros e estrangeiros que têm participado das atividades do Congresso Brasileiro de Poesia, realizado anualmente na cidade de Bento Gonçalves/RS, sempre na primeira semana de outubro

Minha foto
Nome: Ademir Antônio Bacca
Local: Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, Brazil

poeta, escritor, contista, jornalista, atuando atualmente como produtor cultural

Sexta-feira, Agosto 31, 2007

EDUARDO ALVES DA COSTA — Nasceu em Niterói RJ, em 1936. Concluiu o curso de Direito na Universidade Mackenzie em 1952, em São Paulo SP. Por volta de 1960 organizou as Noites de Poesia, no Teatro Arena, em São Paulo. Participou no movimento dos Novíssimos, da Massao Ohno, em 1962. Entre 1962 e 1989 publicou a novela “Fátima e o Velho”, o romance “Chongas” e o livro de contos “A Sala do Jogo”. Recebeu, em 1978, o prêmio Anchieta de Teatro para a peça “As Campainhas”. Em 1994 foi lançado seu livro juvenil “Memórias de um Assoviador”. Entre 1996 e 1998 foi cronista do jornal paulistano Diário Popular. Seu único livro de poesia, “No caminho, com Maiakóvski”, foi publicado em 1985. Sobre sua obra, a crítica Elvira Foeppel afirmou: "Eduardo Alves da Costa, em direção à originalidade, implica em experiências mais difíceis abandonando todavia o itinerário do cerebral que constrói seu mundo poético frio e asséptico, árido e imperfeito. Há certa obediência em seu roteiro lírico, os recursos literários são medidos, de um coeso inovador. O verso elástico e descritivo em explosões sem rima, sem fórmulas métricas, o predispõe ao caminho da prosa."
Eduardo Alves da Costa é vítima da maior injustiça literária já cometida e conhecida no Brasil em seus quinhentos e tantos anos de história. Um excerto do seu poema "No Caminho com Maiakovski" vem sendo, através dos anos, atribuído erroneamente ao poeta russo Vladimir Maiakovski. Quem errou primeiro foi o escritor Roberto Freire, no livro "Viva eu, viva tu, viva o rabo de tatu".
Trata-se de um dos mais belos poemas já escritos e publicados no Brasil. Se algum dia você ouvir alguém atribuí-lo a Maiakovski, utilize a última palavra do próprio poema e grite: MENTIRA! Apresento aos que não conhecem, o poema na sua íntegra, ressaltando em vermelho o texto que virou um ícone na luta contra a ditadura e que popularizou Maikovski entre os estudantes e a esquerda brasileira, muito mais do que a sua excelente obra.


NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

© Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

LUIZ FERNANDO PRÔA — carioca, poeta e escritor. Está presente em várias antologias, jornais e sites de cultura.
Participou com destaque em diversos concursos literários.
Escreveu para três revistas de circulação nacional.
Produtor e editor do site de cultura Alma de Poeta (desde 2000).
www.almadepoeta.com
Diretor do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro (2001/2004).
Tem dois livros de poesia editados: Alma de Poeta (1999), Retratos da Alma (2001). E outros três prontos para edição: Visões da Nova Era (crônica), Maria Helena, Aprendiz do Amor (romance) e De Braços Abertos (poesia).

DE BRAÇOS ABERTOS

© LUIZ FERNANDO PRÔA

esse par de braços
que estendo
abraça o mundo
enquanto é tempo
sei que cada momento
é tudo o que tenho
e o agora tudo que existe

de braços abertos
me entrego
e abraço os amigos
enquanto os vejo
no recanto seguro
do que amo e sinto
a alma, espaço sem limites

mesmo quando estou triste
e o pranto é tanto
e a dor é toda
não sei como nem quanto
guardo nos braços um abrigo
me curo, me dando

esse é meu gesto
exponho o peito sem medo
sem dúvida, inteiro
e a quem queira
me entrego


KARLA YAMAMOTO — Nissei nascida em agosto de 1969, na cidade de São Paulo, formou-se em administração de empresas pela PUC/SP, em 1990. Em 1993, quando se casou, mudou-se para um sítio na cidade de Itaberá, interior de São Paulo, e se dedicou completamente à família junto à paz da natureza, de onde lhe vem a inspiração para escrever seus poemas e haicais. Atualmente mora na cidade de Itapeva, onde cursa especialização em Gestão de Negócios na Faculdade Metodista e também freqüenta aulas de violão e espanhol. Embora escreva poemas e haicais, seu sonho é publicar um livro de estórias infantis.
Fez sua estréia em livro na antologia haicais “Poetas do Café”, publicada pela comunidade do Orkut “Café Filosófico das Quatro”, e lançada durante o XIV Congresso Brasileiro de Poesia, em 2006.


MATEMÁTICA DO AMOR

© KARLA YAMAMOTO

Professor me ensinou
Que a matemática da vida
Tem lá o seu valor
Se a conta se multiplica

O valor presente, amor
O período de tempo, prolongado
O valor futuro, promissor
Os juros, amortizados

Mas ele se esquece
De um fator essencial:
Amor singelamente só obedece
Ao coração no principal

SELMO VASCONCELLOS — nasceu no Rio de Janeiro, RJ e reside em Porto Velho/RO. Formado em Administração, é Poeta, cronista, contista, antologista e, sem dúvida nenhuma, o maior divulgador cultural de todo o norte do país.
Editor da página literária impressa semanal “LÍTERO CULTURAL” desde 15 deagosto de 1991, no jornal ALTO MADEIRA e colunista das páginas : www.rondoniaovivo.com - página Momento Lítero Cultural e http://orebate-selmovasconcellos.blogspot.com – página Momento Lítero Cultural – jornal www.jornalorebate.com , com aproximadamente 2500 colaboradores em todos os quadrantes do País e mais 36 Países.
Publicou diversos de prosa e poesia, entre eles: “Rever Verso Inverso”, “Nictêmero”, “Pomo de Discórdia”, “Resquícios Ponderados”, “Morde e Assopra”, além do livreto independente “Desabafos”, em memória de Roy Orbison. Participou de diversas antologias, com destaque para “Leonardo, meu neto” e “Galeria dos Amigos do Lítero Cultural”.
Tem poemas traduzidos para o francês, inglês, alemão, italiano, japonês, russo, grego, chinês, polonês, romeno e espanhol. Seus trabalhos na net são encontrados nos seguintes endereços:
www.selmovasconcellos-curriculoliterário.blogspot.comwww.selmovasconcellos.zip.net


MATA

© SELMO VASCONCELOS

Hoje me matas
violentamente
com este machado.

Mas,
amanhã das minhas flores
te farão uma coroa,
do meu caule
tua urna mortuária.

Aí sim,
irás ao encontro
da minha raiz.

Eu te esperarei lá embaixo.

Terça-feira, Agosto 07, 2007


ANTONIO CÍCERO — nasceu no Rio de Janeiro em 1945. Poeta e ensaísta, ele é autor, entre outras coisas, dos livros de poemas Guardar (Rio de Janeiro: Record, 1996), contemplado com o Prêmio Nestlé de Literatura, e A cidade e os livros (Rio de Janeiro: Record, 1996), assim como do ensaio filosófico O mundo desde o fim (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995) e do livro de ensaios sobre poesia e arte Finalidades sem fim (São Paulo: Companhia das Letras, 2005). Junto com o poeta Waly Salomão, editou o livro de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994) e, em parceria com o poeta Eucanaã Ferraz, organizou a Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (São Paulo: Companhia das Letras, 2003). Além disso, é autor de diversas letras de música, contando como parceiros e intérpretes, além de sua irmã, Marina Lima, Adriana Calcanhotto e João Bosco entre outros.

PROVA

© ANTONIO CÍCERO

Traçada em vermelho sangue, a nota, sob
o triângulo retângulo formado
por uma dobra ao canto superior
direito da folha de papel almaço
pautado que suportara aquela prova
final de matemática, reprovava-o.
Justa recompensa para quem em toda
aula refolhando-se em si mesmo, sáfaro,
ensimesmado e contudo alienado
de si, não reconhece jamais a imagem
pura que dele o duro espelho cifrado
da matemática, ao refletir, refrange.
Distrai-se a ouvir sirenes, risos de moças
lá longe, lotações, bondes, bicicletas
a fugir da escola rumo a nebulosas
destinações. Vê que esqueceu a caneta.
Acha um toco de lápis que com os dentes
e as unhas aponta e, surdo para leis
que alguém que não ele mesmo delibere –
gênio, deus, demônio, anjo, monstro ou rei –,
debruça-se em seu caderno a rabiscar
quiçá uma gramática especulativa
ou uma característica universal
excogitada por via negativa
e abstrusa, e acintosamente descura
das matérias do curso e dos professores
e alunos que o cercam e jamais capturam.

A sineta toca. Pelos corredores
pensa no pai, na mãe, na avó, no vexame
e na decepção de todos. Seu fastio
é enorme: despreza a vida e a gravidade
com que a encaram. Pondera o suicídio
e se sente mais leve. Pode atirar-se
do terraço do prédio do consultório
do seu dentista, alto sobre a cidade.
Fora da escola toma um sorvete e um ônibus
até o ponto final, no centro. Caminha
até o edifício, pega o elevador
até o último andar, depois ainda
galga um lance de escadas e alcança ao pôr-
do-sol a cidade alâmbar a seus pés.
Decide escrever uma carta ou uma nota
no próprio papel da prova, mas cadê
o toco de lápis? Largara-o na escola.
Resolve deixar para alguma outra hora
o suicídio. Dobra o papel, desdobra,
dobra e o solta a dar voltas, revoltas, voltas
acima de todas as coisas, gaivota.

Segunda-feira, Agosto 06, 2007


BETH ALMEIDA — nascida e criada em Belo Horizonte, é arquiteta de interiores por convicção, artista plástica por ousadia e poeta por pretensão. Se auto-define intensa e possuidora de uma alma feliz porque a vida tem lhe dado lucros. Em sua arte e poesia predominam os sentimentos e as emoções, nas quais se remete de cor e corpo às lembranças, desejos mal realizados e suspiros bem dados. Já morreu sete vezes e ainda assim acredita que a vida é uma possibilidade. Publica seus poemas e prosas na web:


ou amnésia, ou ressaca
— a escolha é pessoal e intransferível

© BETH ALMEIDA

esqueça em cima da mesa do bar
as revelações de alguns flashs
as etiquetas das nossas costuras
a incompetência do que se chama amor

dê de gorjeta ao garçon
o soluço das muitas neuras
as respostas que nos consomem
as mordaças que nos diluem

a esperança que exorciza
o personagem que resiste
ou
brinde em derradeiro gole
tudo aquilo que inventamos

: em dose letal
o nosso próprio veneno
que lateja goela abaixo
engasgando nossos silêncios


IACYR ANDERSON FREITAS — nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1963. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora, o poeta obteve também, pela mesma instituição, o título de mestre em Letras (área de concentração: Teoria da Literatura). Publicou diversos livros de poesia, ensaio literário e prosa de ficção, tendo recebido várias premiações no Brasil e no exterior.
Sua obra se encontra bastante divulgada em outras línguas e países (Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Malta e Portugal).
Além de colaborar intensamente com a imprensa brasileira, já publicou poemas e textos críticos em Arquitrave (Colômbia), Comun Presencia (Colômbia), Fokus (Malta), International Poetry Review (USA), Los rollos del mal muerto (Argentina), O comércio do Porto (Portugal), Private (Itália), Punto di vista (Itália), Ricerca research recherche (Itália), Rimbaud Revue (França), Saudade (Portugal), Semicerchio (Itália) e Serta (Espanha), entre outros.

A UMA FORMIGA

© IACIR ANDERSON FREITAS

Sei que cumpres teus anos
a cada minuto,
que não terás muito tempo
para o que de fato é o tempo
e suas recusas.

Vejo-te cruzar agora
o planalto de linho e trigo
que diante de mim
é uma simples mesa
mas em ti
assombra a eternidade
com suas frutas,
seus lençóis de pão e açúcar,
suas colheres de um leite
que lembra na carne
o paraíso.

És para mim
uma máquina sem sentido no mundo.

De tua boca
fogem talvez cometas absurdos,
constelações que têm no dorso
o nome de meus antepassados,
folhagens que não vi ou não provei, palavras
que ainda me chamam
da infância.

És o que não compreendo.
O que é extremo
feito o sinal de Deus
e não compreendo.

Tu continuas sobre a mesa.
O planalto de linho não se acaba,
indiferente a mim e a ti
nesta casa.

A minha presença, o meu assombro, nada
chegou ainda a teu corpo.
Tu tens talvez este resto de tarde
que não deixará um nome
na inconsciência
que te move.

Também eu
que te sei
não me salvo:
esse incêndio levará um dia
a tua lembrança
do meu sangue, levará a lembrança
de outros dias,
a memória do sangue
no meu sangue
e o mundo voltará à indiferença
que nos cerca.

Teu corpo vence enfim o beiral de linho
e desaparece comigo
no caos.


MÔNICA DE AQUINO — nasceu em Belo Horizonte, em 1979. Sístole, seu primeiro livro, foi lançado em junho de 2005 pela editora carioca Bem-te-vi, e faz parte da coleção Canto do Bem-te-vi. No mesmo ano, foi convidada para integrar a antologia O Achamento de Portugal, organizada pelo poeta Wilmar Silva e publicada pela Anome em parceria com a Fundação Camões. Participou, também, da antologia catalã Panamericana, poetas americanas nascidas a partir de 1976, organizada pelo poeta espanhol Joan Navarro e publicada na revista eletrônica sèrieAlfa em 2006. Já teve poemas publicados em páginas eletrônicas do Brasil e do exterior e em periódicos como o Suplemento Literário de Minas Gerais e a revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional. Participou de vários eventos apresentando seus poemas, dentre eles O Terças Poéticas, realizado pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, a Primavera dos Livros em São Paulo e a Feira do Livro de Porto Alegre. Sua participação no projeto Terças Poéticas foi a estréia de um sarau acompanhado por percussão, e apresentado depois em outros eventos, e em bares e cafés.
Contato:
monicadeaquino@gmail.com

Sempre o mesmo movimento
sobre o lago de espelho

a mesma nota
de cor
a volta a esmo
ao redor de si
o mesmo si
lá sol –
giro agudo
corpo extremo.

São os teus dedos
que põem a bailarina
de pé
ao som do mínimo
ruído
do talvez.

A bailarina, não vês.
Os teus sentidos só sabem
o ventre da engrenagem.

Sob a túnica, a caixa
já desliza uma falha
no compasso bate-estaca
o sangue
urgente bate
escapa
e a bailarina
roda roda

O coração,
à corda
caixa de música
contra o espelho
caixa preta
ao avesso.

E a bailarina, esticada
roda e roda
e não anseia
senão
o fundo da caixa
uma noite aveludada.
A tampa fechada.

© MÔNICA AQUINO


BRASIGÓIS FELICIO — Brasigóis Felício Carneiro tem 36 livros publicados, entre obras de poesia, conto, crônica, romance e crítica literária. Presidiu a Ube-go (União Brasileira de Escritores, seção de Goiás) e ocupa a cadeira 25 da Academia Goiana de Letras. É detentor de dezenas de premiações literárias, e integra antologias de contos e poesias publicadas no Brasil e em outros países.
A fortuna crítica sobre sua produção literária inclui estudos em universidades, jornais e revistas especializados do Brasil e do exterior. Pertence à geração literária que emergiu em Goiás a partir da década de 1970. A antologia No Barco dos dias – 30 anos de navegação poética reúne alguns dos poemas que marcaram sua produção poética do período.
Hotel do tempo, livro de poemas lançado em 1982, pela Editora Civilização Brasileira, figura entre suas obras mais destacadas, sendo uma das obras do Cânone Literário da poesia brasileira feita em Goiás. Em 1983, durante o obscurantismo da ditadura militar, teve seu romance Diários de André censurado e apreendido por ordem do ex-Ministro da Justiça, Armando Falcão.


NUNCA NADA

© BRASIGOIS FELICIO

“Nunca dirija um carro
se estiver morto”.

Jamais o desloque
por ruas e estradas
se não estiver dentro
— aceso, dentro
de si mesmo,
como um incêndio.

Nunca fale
em tom solene e grave
estando certo
de que o tom não cabe.

Nunca esteja certo
de que sabe tudo
se não estiver certo
de que nada sabe.

Nunca diga pronto
se o Ser desperto
não está no ponto.

Nunca diga à sombra
que está despedida
sem pagar as contas

Nas idas e vindas
nunca siga alguém
que está perdido.